domingo, 3 de julho de 2011

DRAMATURGIA #1 - MARCIO CASTRO: TERMINAL / NO QUE EU CONFIO - 02/07/2011

Onde está o corpo, eu pergunto, onde está?
Que corpo é esse? O corpo do performer, do ator, do ser comum, do ser em comunidade?
Onde está o corpo? Eu pergunto: onde está?

Você acredita em mim?
Você acreditaria em mim?
Se eu te disser, você acredita?
Se você acredita, você confia?
Se eu disser, você confia?
Se a experiência de confiar valer, você confia?
Você quer confiar?

Se eu disser que comi frango com cenoura ontem, você confia?
Se eu disser que ganhei 3000 reais ontem, você confia?
Eu te digo: confia que eu te levo lá. Você confia?
Se eu disser que ontem, meio dia, eu fui até a São João, você?
Se eu disser que ontem, na São João eu ofereci uma carona, você confia?

Se eu disser que onze e meia da manhã eu estava na paulista e desci para São João, e na São João, eu te dei uma carona, você confia?

Onde está o corpo, em que lugar? Em qual lugar?
Qual é meu corpo descortinado e desconfiado descontente da confiança?
Você pegaria uma carona comigo hoje? Você confia em mim?
A Teth confia em mim? O Zé Fernando confia em mim? A Lucienne confia em mim? Fabrício, você? Se eu disser que não confio na Priscila, você, Dinah, confia em mim?
Chico: quer uma carona?
No que eu confio? Onde está o corpo? É verdade que onze e meia Ana Carolina estava no meu carro subindo a Consolação pra Paulista, e eu dei o endereço deste blog?
(...) trecho final da postagem de maio
Lucienne já se lançou; e, assim que aparecerem os primeiros rebentos, voarão para as mãos, os corpos e os corações dos intérpretes convidados.

Só aí é que vamos começar a ver as possibilidades......

Francisco Medeiros
Postado por Lucienne Guedes às 18:44
1 comentários:

ana carolina disse...
hoje uma moça bem alta e magra me abordou na avenida são joão, e me perguntou se eu confiaria nela ao propor uma carona. me deu a carona então, e fui parar na região da paulista. depois me passou o endereço deste blog, e fiquei feliz pelo trabalho! muito obrigada pela possibilidade. o mundo precisa rever as relações pessoais, até porque a sustentabilidade é algo que não dá mais pra não discutir. está aí pra todo mundo ver! que bom que a arte está discutindo o meio ambiente também!

beijos!

ana.
29 de junho de 2011 14:12





Eu pedi para a Ana Carolina dizer que eu era loira alta? Você confia? Que eu menti?

sábado, 2 de julho de 2011

Geléia ontem, geléia amanhã

Naquela ocasião era uma cadeira normal, não como essa. Mas ela se sentia como a cadeira. Pequena.

E também a cadeira tinha muita memória, muita história. Foi o avô dela quem fez. Ele sempre teve muito talento para as coisas manuais, tinha uma oficina no fundo da casa.

A cadeira ela achava que tinha mais de 40 anos. Ele fez essa e uma outra, parecida, mas mais arredondada, quando nasceram os dois primeiro netos. O Edu e a Lu. Havia um trato, as duas cadeiras não podiam sair da casa dos avós. Depois veio a Patrícia, depois ela. Depois sua irmã e o Ju, depois o Victor, seu primo. E depois ela achava que as crianças pararam de ligar para as cadeiras. Essa cadeira estava enconstada na chácara dos pais dela, num canto, ao lado de uma bandeira do Brasil, uma do Corinthians e uma da Espanha, que ela não sabia porque, o pai tinha na sala.

Ela escolheu essa cadeira por esses dois motivos.

Ela chegou.

Depois de procurar muito, escolheu um lugar. Se sentou.

Seria como se.... A Dinah passasse. Depois o Plínio. Depois o Marcinho apressado. Depois o Faber cheio de malas. A Dinah sentaria ao seu lado e comeria um sanduíche, sem percebê-la. O Plínio passaria de novo e a encararia. O Marcinho passaria falando ao celular. O Faber passaria de novo. A Dinah levantaria e sairia. O Plínio voltaria e diria que trocaria o café, que ela trocava por uma confidência, pelo número do seu telefone. Marcinho passaria assobiando. Era uma multidão.

Tinha barulho de ônibus, de criança, de televisão. Chamados no microfone.

Ela, como outros, esperava. Não um ônibus como eles, mas um encontro. Ela ali. Em um lugar em que ninguém parecia estar.

Se sentia invisível. Pensava que a vida inteira era isso; a gente só passa; ou espera. Daí pensava no começo do universo. E no fim. Mas se o universo pudesse chegar a um fim por que ainda não o teria feito?

Então chegou uma mulher. Não havia outro lugar para se sentar porque as cadeiras estavam ocupadas, ou molhadas, talvez mijo.

Ela pediu uma confidência.

A mulher não entendeu.

Ela pediu uma história, um segredo.

A mulher era negra, mais de setenta anos. De Itaberaba.

Contou que a infância tinha sido muito pobre. Que o irmão de quatro anos morreu aguado porque viu uma mulher comendo paio com torresmo. Ela pensou que eles tinham fome.

A mulher se lembra da mãe, do irmão, da roça, do milho, da amendoim, da cidade, de quando chegou em sp, do trabalho como doméstica.

A mulher conta que gosta da cidade. Que tem três filhos. Que está indo para Ilha Comprida. Gosta de lá, vai a praia, passeia.

Enquanto a mulher fala, a mulher se lembra. Enquanto a mulher fala, ela imagina.

A mulher se lembra das paisagens, das pessoas, dos cheiros, dos medos. Ela cria tudo isso na sua cabeça.

Elas se despedem. Ela pensa que a gente habita pouco o presente. Pensa na Alice no País das Maravilhas: por que geléia ontem, geleia amanhã e nunca geléia hoje? Pensa por que nunca disse ao avô o quanto gostava dessa cadeira.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vislumbres do futuro


Texto escrito por Francisco Medeiros

O caminho das Narrativas Urbanas na Terra sem Lei tem sido marcado por experiências sempre intensas, perturbadoras, estimulantes....
Desde os primeiros encontros com a Cia.Senhas de Curitiba que nós, dos Argonautas, tivemos certeza da vontade de cruzar caminhos, trocar experiências.
Depois de alguns namoros vamos devagarinho tentando radicalizar a troca.
Difícil, sobretudo pelas dificuldades de administrar agendas, compromissos, sonhos.
Mas a gente não se deixa abater pelas dificuldades as vezes canhestras, mas difíceis....
Nem nós daqui, nem eles de lá.
Estamos agora num momento delicado...
Depois de inventar intervenções, coletar depoimentos, reações, imagens nas ruas, em elevadores, em diferentes espaços públicos, em redes sociais, enfim, de ouvir, ver e narrar reciprocamente acontecimentos, é chegada a hora de confrontar-se com o material.
Ver que suco tiramos destas polpas.
Derreter o material que parece rígido, fertilizar os campos, deixar ecoar......
Como disse Lucienne, é hora da Dramaturgia lançar-se na organização e frutificação do material.
É hora da Direção também lançar-se, arriscando sensações, vislumbrando imagens na neblina....
Lendo, relendo comentários e documentos postados pelos interpretes, nasce a vontade de explorar a potencia do material em diferentes espaços, linguagens, estilos e perspectivas de visão.
Nada claro, mas suficientemente difuso para ser entrevisto:

Drama, comedia, melodrama, farsa, tragédia.

Com palavras, sem palavras,

Para um espectador de cada vez, para poucos, para muitos, para a cidade.

Diálogos, narrativas, silêncios que falam.

Ocupações variadas de espaços diversos.

Presença viva do intérprete, presença viva da voz sem corpo, do corpo sem voz

Espaços internos, e espaços externos, a rua, o palco, o canto, o espaço inusitado, inesperado.

Enfim, lugares onde nascem ( ou morrem ) CONFIDENCIAS, CONFIANÇAS, DESEJOS ( vivos ou mortos).

Lucienne já se lançou; e, assim que aparecerem os primeiros rebentos, voarão para as mãos, os corpos e os corações dos intérpretes convidados.

Só aí é que vamos começar a ver as possibilidades......

Francisco Medeiros

TUDO PODE SE TORNAR MELHOR


Este texto serve para atualizar o nosso trabalho para quem visita e segue este blog. Agora, final de maio, estamos numa etapa muito especial. Eu chamaria de recolhimento, ao menos para mim, Lucienne, que cuido entre outras coisas da dramaturgia de “Narrativas Urbanas na Terra Sem Lei”.
Nós, o Núcleo Argonautas, fizemos um encontro com a nossa parceira de Rumos Itaú, a CiaSenhas, de Curitiba, pra que o trabalho desse um início, presencial. Juntos, em Curitiba, afinamos nossos interesses comuns, aqueles que já se apontavam no projeto inicial. Estivemos juntos por cinco dias inteiros, numa rotina de trabalho de nossos sonhos, dedicados, produtivos e interessados, em companhia de outras pessoas que tem o mesmo interesse. Isso é sonho, não? O treinamento que fizemos, utilizando a técnica de Anne Bogart, Viewpoints, ajudou sobremaneira para que os interesses e intenções iniciais encontrassem um território enfim comum aos dois grupos.
Esse território vislumbrou o encontro com o público na rua, com o público que passa; vislumbrou também desenvolver a atitude performativa do intérprete; vislumbrou ações possíveis fora da sala de trabalho, nas ruas da cidade, que pudessem gerar material/documento para que uma dramaturgia se desenvolvesse.
Terminados esses dias de sonho, voltamos a São Paulo, nós do Núcleo Argonautas. E esta cidade de novo nos engoliu. Assusta-nos com seu tamanho, com sua ausência de identidade possível, com a maneira de nos devolver a uma escala quase insignificante, nós, que fazemos teatro.
Mas é isso que temos, e é com isso que teremos que nos encontrar. Porque nós queremos isso: único motivo válido. Queremos. Queremos ver o que fazemos diante da cidade. Queremos ver as diferenças e semelhanças com Curitiba, através de nossos parceiros muito bem escolhidos.
Então: agora é a hora de recolher todo o material levantado nas três ações já realizadas. Nosso tema de interesse está presente: DESEJO, CONFIANÇA E CONFIDÊNCIA.
Da primeira ação, temos uma grande coleção de respostas que vieram da nossa provocação/enigma lançada na internet: VOCÊ GOSTARIA DE ESTAR ONDE ESTÁ? São muitas respostas as respostas que apareceram pelo desejo “cutucado”. Valem o conteúdo e a forma, valem o excesso e a escassez de todo esse mundo de contato estabelecido, com gente até mesmo desconhecida e anônima.
Da segunda ação, temos umas poucas respostas, dessa vez coletadas pessoalmente, colhidas por nós que fomos ao encontro das pessoas na cidade, pessoas que puderam ter a possibilidade da confiança posta à prova, de confiar num outro, desconhecido. Dessa vez valia também o relato e o relator. E dessa vez não valia relato escrito por quem viveu: o relato era feito a outro companheiro que, este sim, escreveu. A pergunta motivo para o encontro foi: A CONFIANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE?
Da terceira ação temos muitas coisas. Nos dispomos ao encontro. Estivemos à disposição. Desta vez, Núcleo Argonautas criou um programa de ação para que CiaSenhas realizasse, e vice-versa. E então nós fomos ao terminal rodoviário para estar à disposição, para receber uma confidencia em troca de uma xícara de café. Uma placa estava perto do corpo, que estava perto da garrafa de café: UM CAFÉ POR UMA CONFIDÊNCIA. E dessa ação saem relatos, experiências, encontros, desencontros, medos desfeitos: tudo é material para a nossa dramaturgia.
O que faço eu a partir desse material? Como devolvo todos os relatos, como organizo isto e devolvo como provocação e estímulo para os atores, para o diretor, para a CiaSenhas? O que é possível vislumbrar agora? Para além da dramaturgia em si, do texto escrito, é possível vislumbrar possibilidades de “cenas” diferenciadas? É possível vislumbrar, seja forma ou conteúdo, uma relação potente da linguagem teatral com o espectador?
É nesse ponto que estamos.
Temos ainda três meses, que eu espero sejam tão interessantes quanto o que foi até agora. Eu espero também que o encontro com a CiaSenhas seja potente até o fim.

terça-feira, 3 de maio de 2011

a experiência do ator Plinio Soares, "um café por uma confidência"



"Hoje, ao abrir os olhos, pensei: é o dia da tal consígnia, será que eu vou conseguir?!!?!? Um incômodo e uma ansiedade me acompanharam a manhã inteira, tinha no fundo de mim uma esperançazinha que o Marcio ligasse dizendo que não ia poder, adiar sei lá! - ao mesmo tempo que tinha isso, fazia tudo rápido pra chegar logo e ver o que ia acontecer.

Às 13h00 o Márcio chegou, aí eu pensei: agora não tem mais jeito, vamos nessa. Almoçamos juntos, combinamos que ele prepararia o cartaz no computer e eu faria o café.

Cartaz pronto e agora o café, que ficou muito bom, até precisar colocar mais açúcar. Lá fomos nós - o aperto em mim não diminuía, estacionamos o carro e eu fiquei com a placa na mão e o Márcio com o café na sacola. Fomos até a estação Barra Funda - as meninas - Priscila e Dinah, as outras atrizes - já tinham ido lá pela manhã, achamos que não teria problema da gente ir à tarde, dado o volume de gente que passa por lá, embora seja menor que o Terminal Tietê.

Eu fui subindo a rampa com a placa à mostra, encarando as pessoas, percebendo reações, e junto disso fui ligando um "foda-se, já to aqui e não aconteceu nada", vai rolar!!! Era um descompromisso tal que se ainda havia tensão agora era mais ansiedade de poder contribuir da melhor maneira possível. Sim, isso começou às 15h30 (pensei comigo: mais 40 minutos e acabou; acho que isso foi me relaxando).

Procuramos um lugar com maior fluxo de gente e eu sentei com a placa - o Márcio perguntou se eu queria ficar, eu respondi: "já tô!"

O primeiro lugar não era tão bom, o Márcio foi até outro corredor e disse que era melhor e fomos prá lá.

Que louca é nossa cidade! As pessoas voam, não existe espaço dentro delas pra respirar. As pessoas liam a placa, às vezes com incredulidade, às vezes era só uma placa na paisagem, sem importância. Poucas ao lerem reprovavam a atitude. Uns liam, andavam, olhavam pra trás...; se por acaso meu olhar cruzava era imediatamente retomado o caminho. Esses olhares ficaram muito marcados em mim, que ao mesmo tempo os via sumir e mantinha meu imã pra ver se voltavam - isso não rolou! E o Márcio de longe, dando a infra, me fazendo confiante no que eu tava fazendo. Comecei a fazer uma energização em mim pra ver se eu magnetizava alguém, sem sucesso. Pô! Ninguém... Era como se fosse uma paquera: eu olhava fundo e acompanhava as pessoas pra ver se vinham falar comigo.

Passava meia hora e nada. Foi quando sugiram duas moças. Uma delas parou, "iluminada", "pra fora", com esmaltes azuis cintilantes, e veio perguntar o que que era. Eu falei que era um trabalho de pesquisa. "Eu tenho que fazer uma confidência pra tomar um café?", ela perguntou, e eu respondi: se você quiser. Servi o café, e ela: "se eu tiver que contar confidência vou ficar aqui conversando muito... " E eu: "você que sabe..."

Silêncio dela, enquanto tomava o café... "Eu tô super apaixonada e vou fazer macumba pra ficar com ele... " E eu: "que legal!"E ela, indignada: "legal? ... Nem a minha amiga sabe disso (a outra que estava vindo com ela sumiu), eu já ficquei com ele, foi o meu primeiro, mas ele é casado..."

Nisso chega uma criança e diz que quer tomar café. O pai, imediatamente: não! Mas a garota insistiu, o pai "ta bom!", eu servi. O pai cuida de filha: "tá quente... eu tenho que fazer um confidência? E eu: "se você quiser". "Mas eu não tenho nada pra dizer..." (A moça das unhas azuis sumiu, não a vi indo embora) O pai fala pra menina: "fala o que aconteceu ontem, aquilo que você contou pra mim". A menina coxixou no ouvido dele e falou algo pra mim que eu não entendi. O pai: "fala pra ele o que aconteceu ontem". E ela: "foi meu aniversário..." E eu: "parabéns!, quantos anos?" E ela mostra nos dedos: 4! O pai: "diz o que você aprendeu ontem". Ela, então, faz dois riscos no ar e diz "X". E eu: "olha só, você sabe escrever!". O pai: "fala como é seu nome". E ela fez um L na parede e disse que era Lívia. E eu: "que nome lindo!". O pai, com a camiseta do São Paulo, agradeceu, me cumprimentou e foram embora.

Em seguida o Márcio chegou até mim e disse que já tinha passado a hora do programa, os quarenta minutos. Foi tão rápido que eu nem percebi... e aí, voltamos andando no meio da multidão com a placa. Eu falei: "Márcio, fotografa!!!"E eu andando pé ante pé e me virando pras pessoas lerem. Mas ninguém parou, embora dessa vez as pessoas mais acintosamente liam a placa, andavam um pouco, conferiam o que estava escrito e iam embora. Chegamos ao carro; tinha um homeless tomando conta. E eu falei pro Márcio: "dá café pra ele! Quer tomar um café? Mas eu vou também te dar um trocado, não quer um café?" E ele, o homeless, disse: "Não, obrigado; acabei de tomar um suco, só tô tomando gelado". Entramos no carro e voltamos pra casa.

COMO O PAULISTA É ENCASTELADO!!! Sérá que em Curitiba seria diferente? As pessoas teriam mais disponibilidade pra falar? Essas questões calaram fundo em nossas cabeças."

escrito e relatado por Plinio Soares

terça-feira, 26 de abril de 2011

antes tarde do que nunca!

dia 13/03 às 13h13

Ela estava parada
encostada na parede.
Sua pele reluzia
seus olhos coloridos
sua boca pintada
seus cabelos espalhados.
Os olhos de quem a olha,
observa e se aproxima lentamente,
mas com vigor de quem quer saber algo,
quer ouvir que som que som aquele corpo
aquela boca e olhos emitem.
A proximidade é cada vez maior
mais intensa,
maior a proximidade
maior a ansiedade de quem se aproxima,
ela não, ela está e
estando fica.
Ponto.
Estão lado a lado
na quina
numa estreita esquina
coladas a parede
corpos lado a lado,
olhares no horizonte
nos corpos e imagens transeuntes.
A pergunta
A indagação
Ela deve vir
Ela tem de sair
...
Ela sai
A pergunta sai da boca não tão vermelha por fora
mas vermelha de vontade por dentro
vermelha de calor
de curiosidade.
Após a pronuncia
o silêncio caótico
o silêncio dos corpos juntos
e tão distantes
e então a resposta
- a confiança não acaba mas se renova
- as pessoas merecem uma segunda chance
- a confiança pode ser modificada
O corpo que indaga se despede
O corpo que responde fica pausado no espaço
A partida acontece e em cada um
fica um pedaço do outro
será, aqui
por aqui
ficou.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A arte de pernoitar bem longe de sua casa

São Paulo, segunda-feira, 25 de abril de 2011


A arte de pernoitar bem longe de sua casa

Por PENELOPE GREEN

Kenya Robinson é uma artista autodidata de 33 anos cujo trabalho combina estereótipos de gênero e raça em peças que envolvem coisas como pentes de plástico derretidos, cabelo louro sintético e revistas femininas.
Em janeiro, ela decidiu se tornar nômade por algum tempo e chamar isso de arte. Durante três semanas, Robinson se ofereceu como hóspede (incluindo dez horas de trabalho doméstico, mas a anfitriã devia fornecer pasta de dentes) para qualquer pessoa que a aceitasse. Sua proposta foi enviada por e-mail para colegas do mundo da arte, que a transmitiram a outras pessoas.
Ela chamou o projeto de "O Colchão Inflável", mas, na décima semana, seu colchão havia desinflado, uma baixa nessa combinação de "surfe de sofá", estética relacional e performance artística. Mas Robinson não desanimou.
Robinson sabe que os melhores hóspedes combinam talento para conversa com uma bossa para flexibilidade doméstica e extrema discrição. Para Simone Leigh (primeira semana, pasta de dente Trader Joe de hortelã), uma escultora, ela ajudou a artista em seu ateliê. Para Bettina Goolsby (terceira semana, Colgate Triple Action), uma atriz, Robinson serviu de agenda pessoal e desobstruiu o espaço. Para Legacy Russell (quinta semana, Colgate Whitening), curadora e diretora do ateliê da Bruce High Quality Foundation, o coletivo de artes brincalhão que gosta de zombar do mundo artístico, ela lavou pratos. "No início, eu pensei que ela estivesse surfando sofás", disse Russell. "Os artistas estão sempre em transição." Russell divide seu apartamento de dois quartos com sua namorada, uma advogada.
Para explicar a excursão de Robinson por Nova York, Russell coloca seu chapéu de curadora: "Ela está assumindo uma forma social -o surfe de sofá- que faz parte do tecido material da vida moderna e, depois, a coloca na esfera pública. Qual é a sensação? Para ser honesta, foi como ter uma amiga íntima ficando em casa. Além disso, ela foi organizada. Senti sua falta quando ela partiu."
Robinson, que já trabalhou como estilista de moda e fabricante de moldes, disse que sua performance começou a penetrar em seu trabalho quando ela começou a brincar, por exemplo, com trechos extraídos de romances baratos que ela comprou na Rua 125.
"Eu gosto do fato de ela envolver outros artistas em seus projetos", disse Rashida Bumbray, curadora associada da Kitchen, que visitou Robinson durante sua semana no apartamento de Leigh. "Também me lembra as práticas prolongadas que costumavam acontecer nas décadas de 1970, 80 e 90."
Russell descreveu o projeto de Robinson como um "retrato voyeurista de sete dias na vida dos outros". No início de abril, Robinson soube que foi aceita no programa de mestrado em escultura da Universidade Yale. Ela está procurando um lugar para ficar.